O regresso do castor-europeu a Portugal: depois de 500 anos, a natureza recupera um antigo habitante dos nossos rios

O regresso do castor-europeu a Portugal: depois de 500 anos, a natureza recupera um antigo habitante dos nossos rios

A presença do castor-europeu (Castor fiber) foi oficialmente confirmada em Portugal em 2025, na região do Douro Internacional. Depois de mais de cinco séculos de ausência, o seu regresso representa um acontecimento importante para a biodiversidade nacional e abre novas perspetivas para a recuperação dos ecossistemas ribeirinhos.

Durante milhares de anos, o castor-europeu fez parte da paisagem natural da Península Ibérica. Em Portugal, existem registos da sua presença que remontam a tempos muito antigos, incluindo vestígios fósseis encontrados na Gruta do Caldeirão, em Tomar.

No entanto, a caça excessiva e a degradação dos habitats naturais acabaram por provocar o desaparecimento da espécie do território nacional, entre a época romana e o início da Idade Média. A sua pele, carne e castóreo — uma substância utilizada historicamente na perfumaria e na medicina — fizeram deste animal um alvo de perseguição durante séculos.

Agora, mais de 500 anos depois, o castor está de regresso.

Um regresso natural, vindo de Espanha

A presença do castor em Portugal não resultou de um programa de reintrodução diretamente realizado no nosso país. O seu regresso aconteceu através de uma expansão natural das populações existentes em Espanha, onde a espécie voltou a estabelecer-se em várias bacias hidrográficas após programas de reintrodução.

Através dos cursos de água, estes animais foram progressivamente ocupando novos territórios, acabando por atravessar a fronteira e chegar ao Douro Internacional e a alguns dos seus afluentes.

A confirmação oficial da sua presença em território nacional, em 2025, foi divulgada pela organização Rewilding Portugal, que acompanha os processos de recuperação da natureza e da biodiversidade.

O engenheiro dos rios e um aliado da biodiversidade

O castor é frequentemente conhecido como o «engenheiro dos rios». A razão está na sua capacidade de transformar os ambientes onde vive, através da construção de pequenas barragens e da gestão da vegetação ribeirinha.

Estas alterações podem ter consequências muito positivas para os ecossistemas.

Ao construir diques e criar pequenas lagoas, o castor abranda a circulação da água, favorecendo a sua retenção e infiltração nos solos. Este processo pode contribuir para a recarga dos aquíferos e para a manutenção de zonas húmidas durante os períodos mais secos.

Os ambientes criados pelo castor também podem funcionar como importantes refúgios de biodiversidade, proporcionando condições favoráveis à presença de anfíbios, peixes, aves aquáticas e insetos.

Outro dos benefícios está relacionado com a qualidade da água. As zonas alagadas podem favorecer a retenção de sedimentos e nutrientes, contribuindo para determinados processos naturais de filtragem.

Além disso, a criação de corredores húmidos e de áreas com vegetação mais verde poderá ajudar a reduzir a vulnerabilidade de algumas paisagens ao fogo, embora este efeito dependa das características de cada território.

Nem tudo são vantagens: o desafio da coexistência

Apesar do seu importante papel ecológico, o regresso do castor também poderá trazer alguns desafios às populações locais.

A construção de barragens pode provocar inundações pontuais de terrenos agrícolas, enquanto a alimentação do animal pode levar ao abate de árvores junto às margens dos rios, incluindo algumas de interesse económico ou ornamental.

Por isso, a expansão da espécie deverá ser acompanhada por medidas que permitam conciliar a conservação da natureza com as atividades humanas.

Noutros países europeus já são utilizadas soluções como a instalação de sistemas de drenagem controlada nas barragens dos castores e a proteção de árvores e culturas através de redes ou outras barreiras físicas.

A natureza tem capacidade para recuperar

O regresso do castor-europeu a Portugal é mais do que a chegada de um animal que esteve ausente durante séculos. É também um sinal da capacidade de recuperação da natureza quando existem condições para a expansão das espécies e a continuidade dos corredores ecológicos.

Num país onde a gestão da água, a seca e a perda de biodiversidade são desafios cada vez mais importantes, a presença deste pequeno grande construtor dos rios poderá desempenhar um papel interessante na recuperação dos ecossistemas aquáticos.

Para quem gosta de caminhar e descobrir a natureza, fica também um motivo adicional para olhar com outros olhos para os rios e as paisagens do Douro Internacional.

Afinal, por vezes, a melhor forma de proteger a natureza é permitir que ela volte a fazer aquilo que sempre soube fazer.

João Sá Nogueira - 6 Novembro, 2026